Resenha: Triste beleza - Análise de Utsukushii Koto (Of Beauty - Da Beleza) - Konohara Narise

Título: Utsukushii Koto
Autora: Konohara Narise
Tipo de texto: romance
País: Japão
Ano: 2007

Sinopse: Matsuoka está habituado a vestir as roupas de sua ex-namorada e sair nas noitadas de Tóquio, sentindo prazer em ser notado pelos homens aonde quer que vá. Uma noite, depois de ser assediado por um homem durante um encontro, ele é salvo por Hirosue, um trabalhador mais velho de sua empresa e a quem ele não olharia duas vezes em outras circunstâncias. Encantado com o amor puro e inocente de seu veterano, Matsuoka continua a se vestir de mulher para encontrá-lo até que Hirosue finalmente confessa seus sentimentos. Este trabalho de Narise Konohara demonstra a dor e a beleza de um amor não correspondido.


Utsukushii Koto é o primeiro livro de uma série de trabalhos de Konohara Narise que conta a lenta história de amor entre Yosuke Matsuoka e Motofumi Hirosue. São estes:

1. Utsukushii Koto (Of Beauty - Da beleza)
2. Tokei (Watch - Relógio) - extra (1)
3. Itoshii Koto (Of Tenderness - Da ternura)
4. Aisuru Koto (Of Love - Do amor)
5. Tokei (Watch - Relógio) - extra (2)

Nesta resenha, falarei sobre o primeiro livro, Utsukushii Koto. Os outros trabalhos serão abordados posteriormente.

Matsuoka é um trabalhador do setor de vendas de uma empresa. De sábado a quinta-feira, seus dias são bem mundanos, sempre trabalhando, comendo sozinho ou na companhia de algum colega e indo para casa em horários irregulares. Na sexta-feira, porém, seu dia muda: após sair do trabalho, ele coloca roupas femininas, usa maquiagem e se transforma em uma mulher. É um hábito que adquiriu desde que sua ex-namorada saiu de casa e que usa para aliviar o estresse de sua profissão.

Em uma dessas sextas-feiras, Matsuoka se veste como femme fatale e é abordado por um homem, que lhe oferece muitas bebidas. Após embebedá-lo, o homem o leva para um hotel, onde descobre o seu segredo e o agride. Profundamente humilhado, Matsuoka sai correndo e acaba em um canto de uma rua, onde vomita várias vezes. Para completar, estava sem seus sapatos e caía uma tempestade. Hirosue, um empregado de outro setor de sua empresa, vê a situação e vem ajudá-lo, mas sem saber sua verdadeira identidade. Decidido a não deixar que ele descobrisse, Matsuoka finge ser mudo e apresenta-se como Eto Yoko. 

Eles se reencontram algumas vezes e fica claro que Hirosue se apaixonou profundamente por aquela mulher. A princípio, Matsuoka resolve parar o crossdressing e deixar aquele amor desaparecer com o tempo, mas se envolve mais e mais, a ponto de ele mesmo estar apaixonado. Incapaz de continuar nesta situação, decide confessar a Hirosue sua verdadeira identidade. A partir de então, os dois passam a lidar com separação, preconceitos, ciúme, idealização e realidade, reconstruindo o amor em pilares mais verdadeiros.

Não sou grande fã dos romances românticos japoneses. Posso contar nos dedos quantos já li, sendo que todos são BL (relacionados ao amor entre dois homens). Utsukushii Koto me surpreendeu em alguns pontos, mas reforçou alguns aspectos comuns neste gênero naquele país (alguns não são particularmente do meu gosto).

Quando li a sinopse, achei que encontraria alguns questionamentos de gênero (e não somente o crossdressing), mas não foi o caso. Ele é o mote para o início do relacionamento entre os dois, e apenas isso. Aliás, a verdadeira história, para mim, começa quando Hinosue descobre a verdade. O que acontece antes parece apenas um prelúdio, justamente por ser uma bela e idealizada mentira.

Dois aspectos marcantes de boa parte dos romances românticos japoneses: histórias lentamente construídas e dramas bastante pesarosos. Utsukushii Koto possui os dois, mas eles tornam o romance um tanto contraditório: enquanto a história dos dois nasce e cresce lentamente, em um ritmo que beira a algo dolorosamente real, o drama torna essa mesma história um tanto surreal. Esta última parte, porém, não posso afirmar com toda a certeza: vale lembrar que estou analisando o livro com minha visão de mundo, ocidentalizada, liberal (?). Ainda, é bom atentar que o Japão ainda possui uma cultura bastante fechada para outras nuances diferentes da cis-heteronormatividade. Assim, é compreensível que Hirosue tenha tanta dificuldade para entender Matsuoka, seus próprios sentimentos e o relacionamento que compartilham. Além disso, ele precisa se habituar ao fato de que Eto Yoko, a mulher por quem ele se apaixonou, da forma como se apaixonou, não existe. É quase como se voltasse à estaca zero e precisasse reaprender a amar uma outra pessoa, que é Matsuoka (embora os dois sejam exatamente os mesmos, exceto pela fala e pela aparência).

Há, também, algo que me deixou muito incomodada: sexo consensual e seguro é algo que valorizo muito em boa parte dos romances que leio. Aliás, acredito que ele é fundamental para que um relacionamento progrida de forma saudável, mesmo que seja de uma forma lenta. O sexo deste livro, como de muitos outros que já li, é algo difícil de classificar. De novo, minhas convicções pessoais devem ser consideradas: considero qualquer coisa não-consensual e que machuque um dos envolvidos como estupro, e não conseguiria perdoar meu parceiro caso isso acontecesse. 

Embora o livro seja em terceira pessoa, com o foco narrativo onisciente de Matsuoka, Hirosue é a personagem mais explorada neste livro. O primeiro sabe seus sentimentos, sabe o que quer, coloca limites, desconstrói e reconstrói a imagem daquele homem que ama, mas Hirosue precisa destruir a idealização que fez de uma pessoa, entender seus próprios sentimentos, entender Matsuoka (por que ele fez isso se não é gay? Etc...), passar por outras experiências e infortúnios até finalmente perceber que ele talvez ainda esteja apaixonado pela mesma pessoa, apesar de ela ter aparência e nomes diferentes daqueles a que ele estava acostumado. 

Dói muito estar no lugar de Matsuoka, de verdade. Inúmeras vezes tive uma vontade incontrolável de abandonar o livro, decidir "está tudo acabado, agora os dois vão seguir em frente e fim", e colocar um ponto final, de uma vez por todas, em uma história tão dolorosa; mas a vontade de ver todas as pendências concluídas falou mais alto, e eu continuei. 

Fiquei bastante frustrada com o final, mas, ao mesmo tempo, surpresa. Esperava aquele final feliz repentino e digno de filme... E me deparei com um final totalmente misterioso e incerto, apesar de relativamente "feliz". E isso só me fez ter ainda mais vontade de ler os próximos livros. Excelente gancho, Konohara-sensei!

É difícil analisar a escrita deste livro, pois li a tradução dos queridos da Isolarium, que está maravilhosa (a dor que eu senti no meu coração não foi por acaso, rs). É um estilo mais denso, sentimental, diferente do que estou acostumada. Levei muito mais tempo para ler e fiquei exausta - mas valeu cada segundo.

A capa original é horrorosa e não quis colocá-la aqui. Decidi colocar a capa do drama cd, que possui algumas outras ilustrações que deixo aqui embaixo. 

Para finalizar, Utsukushii Koto é um livro doce e, ao mesmo tempo, bastante amargo, deixando sentimentos conflituosos e muito intensos no coração de quem os lê. Devo isto à escrita de Konohara Narise, a quem aplaudo por esta raríssima habilidade.

Nota: 4/5 estrelas (ótimo)

 

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