Resenha: Morte Súbita - J. K. Rowling

Morte Súbita
Autora: J. K. Rowling
Editora: Nova Fronteira
Ano da edição: 2012
Páginas: 501
ISBN: 978-85-209-3253-7
Tipo: literatura inglesa, romance, século XXI.

Sinopse: 
Quando Barry FairBrother morre inesperadamente aos quarenta e poucos anos, a pequena cidade de Pagford fica em estado de choque.
A aparência idílica do vilarejo, com uma praça de paralelepípedos e uma antiga abadia, esconde uma guerra.
Ricos em guerra com os pobres, adolescentes em guerra com seus pais, esposas em guerra com os maridos, professores em guerra com os alunos Pagford não é o que parece ser à primeira vista.
A vaga deixada por Barry no conselho da paróquia logo se torna o catalisador para a maior guerra já vivida pelo vilarejo. Quem triunfará em uma eleição repleta de paixão, ambivalência e revelações inesperadas? Com muito humor negro, instigante e constantemente surpreendente, Morte Súbita é o primeiro livro para adultos de J.K. Rowling, autora de mais de 450 milhões de exemplares vendidos.

6.11   Será declarada a vacância do mandato de um conselheiro:
  (a) quando este deixar de tomar posse no cargo dentro do prazo regulamentar;
  (b) quando este entregar o seu pedido formal de renúncia; ou
  (c) em caso de morte súbita do titular (...)

Charles Arnold-Baker
Administração dos Conselhos Locais 
7a edição (página 1)

 Morte Súbita é, como diria J.K., um "grande romance sobre uma cidade pequena". A história gira em torno de Pagford, um vilarejo subordinado a outra cidade (chamada Yarvil). Quem toma as decisões do local é um conselho. A morte de um dos conselheiros, Barry FairBrother, traz à tona disputas pelo poder entre seus aliados e seus inimigos.
Barry Fairbrother tinha morrido. Batido as botas. Acabado. Nenhum acontecimento de importância nacional, nem guerra, nem crise do mercado financeiro ou ataque terrorista teria sido capaz de deixar Shirley naquele estado de espanto, de ávido interesse e de especulação febril que agora a consumia.
Detestava Barry Fairbrother. Ela e o marido, que em geral concordavam inteiramente quanto a amizades e inimizades, divergiam um pouco nesse caso. Por vezes, Howard se confessou cativado pelo homenzinho barbudo que lhe fazia uma oposição tão ferrenha nas mesas compridas e arranhadas do salão da igreja. Ela, porém, não fazia diferença alguma entre o aspecto político e o pessoal. Barry tinha enfrentado Howard naquilo que o seu marido mais desejou na vida, o que bastou para fazer dele, aos olhos de Shirley, o pior dos inimigos. (página 17)

— E por último... — repetiu Pombinho, e a sua voz tremeu sem que ele pudesse controlá-la. — Tenho uma notícia... Uma notícia muito triste para lhes dar. O sr. Fairbrother... que foi treinador da nossa tão... vitoriosa equipe feminina de remo durante os últimos dois anos... — Nesse ponto, ele como que engasgou, e passou uma das mãos pelos olhos. —...morreu...
Pombinho Wall estava chorando diante de todos. (página 33)

O que achei da história?
Demorei algum tempo para escrever a resenha. Além de pensar muito sobre o que me agradou ou não (coisas que não conseguia decifrar de imediato), outras avaliações deste livro me mostraram opiniões muito controversas. 
A narrativa não é fluida. Penso que o número maior de personagens ativas na história, o ambiente pequeno e familiar da cidade e um narrador muito onisciente e distante podem ter contribuído. Todas as personagens têm momentos em que seus pensamentos são traduzidos para o leitor por este narrador que tudo vê, mas que não se envolve. É difícil lembrar todos os nomes de imediato e este começo lento pode ser um empecilho para que outros leitores continuem a ler. A partir de um certo momento da história, porém, a narrativa flui um pouco melhor, o enredo fica mais dinâmico e interessante (entretanto, não ao ponto de recompensar pela persistência do leitor). 
A narrativa também é crua - há palavrões, várias cenas bem fortes... Não creio que combine com o estilo da autora. Como o narrador se distancia da história (aparenta somente listar os fatos), todas as cenas tranquilas e chocantes são descritas da mesma maneira, de modo que o impacto delas é diminuído.
A autora consegue colocar excelentes ganchos entre os capítulos - um dos pontos positivos, já que não é algo simples de se fazer.

Deixou a frase inacabada, mas isso não tinha a mínima importância: Maureen sabia exatamente o que ele estava pensando. Vendo a conselheira Jawanda desaparecer numa esquina, ambos estavam contemplando a tal vacância, e, a seus olhos, ela não era um espaço vazio, mas a cartola de um mágico, cheinha de possibilidades. (página 40)

A ideia é diferente, louvável, mas poderia ter sido melhor explorada. O final é realista; na verdade, foi o que mais gostei no livro. 
Morte Súbita é um livro que não leria se não houvesse me prontificado (devido ao Reading Challenge) e se não fosse da J.K. Rowling.

O que achei das personagens?
São complexas (às vezes, até mais do que o necessário), especialmente egocêntricas - talvez pelo narrador conhecê-las tão profundamente - e chocantes em seus segredos. Aqui se aplica a máxima: "todos têm algo a esconder".

Uma grande cicatriz, que cobria parte do seu braço direito e subia até o pescoço, dava à pele daquele local a aparência de um plástico lustroso. Em Londres, Kay tinha conhecido uma dependente química que pôs fogo na casa acidentalmente e só foi perceber o que estava acontecendo quando já era tarde demais. (página 68)

Onde o livro se passa?
Pagford e Yarvil não existem, mas uma pesquisa rápida na wiki do livro (é por isso que eu adoro a internet - há wikis de quase tudo!) mostrou que a primeira é como se fosse uma "mistura" entre as cidades de Padstow e Chagford (embora as duas fiquem a 120km uma da outra) e a segunda é equivalente à cidade de Yeovil (que também não é muito próxima às outras duas). 

Nenhum dos garotos se dignou a olhar para a vista já tão conhecida que se estendia mais abaixo: o minúsculo vilarejo de Pagford encravado no espaço contido entre três colinas, uma das quais encimada pelo que restava da abadia do século XII. Um riozinho estreito serpenteava ao pé da colina e cortava o vilarejo, onde era atravessado por uma ponte de pedra que parecia até de brinquedo. (página 20)

Para entender direito a causa de tal disputa, seria preciso ter uma noção exata da profunda antipatia e da desconfiança que o vilarejo experimentava com relação à cidade de Yarvil, situada a alguns quilômetros mais ao norte.As lojas, os escritórios, as fábricas e o Hospital Geral South West, todos em Yarvil, geravam o grosso dos empregos para os moradores de Pagford. Era também nos seus cinemas e boates que rapazes e moças iam se divertir nas noites de sábado. A cidade possuía uma catedral, diversos parques e dois enormes shopping centers, todos constituindo atrativos para quem já estivesse farto dos magníficos encantos do vilarejo. Apesar de tudo, porém, para os verdadeiros pagfordianos, Yarvil era pouco mais que um mal necessário. A atitude que assumiam era bem-simbolizada pela colina encimada pela abadia de Pargetter, que bloqueava a visão da cidade e lhes proporcionava a doce ilusão de que Yarvil estava muito mais longe deles do que efetivamente estava. (página 61)


Comparativamente
É claro que Morte Súbita e os livros de Harry Potter não têm a semelhança de tema. Portanto, esta análise comparativa não poderá ser completa. 
Quando li HP pela primeira vez, percebi uma certa desinibição por parte da autora que não via em outros livros juvenis. Esta característica também está presente em Morte Súbita, mas de uma forma mais crua (já que o livro é adulto). 
Na saga, os começos também são lentos, mas o mundo mágico é tão deslumbrante que isto parece ser ignorado. Ocorre em MS; todavia, trava a leitura, já que o universo de Pagford não é tão interessante e chamativo.

A edição
Eu li a versão econômica (sem orelhas) e achei muito simples. A capa é igual à original (normalmente, vejo isso como um ponto positivo, mas a odiei no original e também odiei a versão brasileira); as páginas são brancas, o que pode dificultar a leitura, e o papel é de péssima qualidade - puro sulfite colado na capa. A diagramação também não é boa.
Já a tradução me agradou bastante (exceto pelo título. Morte Súbita entrega mais do que deve).

Notas

● Enredo: 2/5
● Exemplar: 2/5;



Sobre a Autora
A escritora britânica Joanne Kathleen Rowling nasceu na cidade de Yate, nas proximidades de Bristol, na Inglaterra, em 31 de julho de 1965. Ela se tornaria célebre pela criação do bruxinho Harry Potter, que lhe renderia sete volumes de uma série premiada e aceita quase unanimemente pela crítica e pelo público.
Desde cedo a autora cultivava o gosto da leitura, e vários escritores despertaram na menina o desejo de ser uma escritora. Durante a infância ela nutria um amor incondicional por seus avós paternos, seus prediletos. Sua avó, Kathleen Ada Bulgen Rowling faleceu quando a garota tinha apenas 9 anos. Em sua homenagem, Joanne adota seu nome, representado pela letra ‘K’, para completar seu nome artístico – J.K. Rowling.



Esta resenha faz parte do Reading Challenge 2015.

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COMENTÁRIOS

8 comentários:

  1. Oi Ana!

    Comprei "Morte Súbita" há mais de um ano e até agora não li para tirar minhas próprias conclusões. Acho que esse é um dos livros que mais vejo dividir opiniões pela blogosfera.

    Gosto da ideia das lutas de poder em uma cidade pequena e do fato de que todos os personagens parecem ter algo a esconder, mas tenho certo receio dessa lentidão (algo que também observo nos livros policias que a autora escreve sob pseudônimo).

    Acho que o mais difícil ao ler um livro da JK é se afastar das comparações com HP e não esperar por aquela sensação de total envolvimento, de não querer parar de ler. Embora ache as comparações injustas (afinal o público e o gênero são totalmente diferentes) acho que eu mesma corro o risco de fazer isso quando fizer a leitura.

    Beijos
    alemdacontracapa.blogspot.com

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  2. Ana, concordo com a maior parte do que disse. Eu vou ser bem sincera, só li porque era da J.K. Mas foi um livro bem difícil de ler, demorei muito para acabar. A história tem muitos personagens, confundindo muito a gente, além da própria história ser um pouco confusa, na minha opinião. Como você, a única coisa que "melhorou" ele foi o final, ele sim foi muito bom e surpreendente. Me decepcionei? Não sei, talvez por ser ela, tenha me decepcionado um pouco. Acho que ela tentou fazer algo fora do mundo de HP e não me deu muito certo. Mas mesmo assim continuo achando ela uma rainha e amando ela. Só não deu certo...
    Beijos!

    www.umolhardeestrangeiro.blogspot.com

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  3. Oi, Ana!
    Sei que já disse isso, mas adoro a sua sinceridade! Acho louvável quem consegue ser realmente sincera numa resenha, independentemente de qual livro for! Já li algumas antes e a maioria dizia que MS é um livro complexo e meio "travado". Confesso que a J. K. é uma das minhas autoras preferidas, cresci com os ensinamento de Harry Potter, mas acho que justamente por ela ter se proposto mudar de estilo, de gênero e de enfoque me fez deixar esses novos livros dela de lado. Comprei O Chamado do Cuco há um ano e até hoje não cheguei nem à metade. A premissa é ótima (e eu amo um suspense!), mas tô tendo muitas dificuldades, acho que justamente pela história ser lenta.

    Não acho, entretanto, que ela tenha perdido o posto de "majestade". Acredito SUPER que escritores precisam se arriscar e sair de suas zonas de conforto! Só acho que ela estava num extremo e foi para outro, assim, de forma surpreendente (e nem tão boa assim). Não sei se vou, algum dia, querer me aventurar pelas páginas de MS. A capa não me atrai nadinha (e, sim, sou do tipo de leitora que ama uma capa elaborada!) e apesar de ter aprendido nas aulas de jornalismo que histórias ordinárias podem, sim, serem extraordinárias, a história desse livro não me chamou a atenção. A sinopse me lembra muito aqueles filmes de época ingleses, aqueles que há muitas intrigas e tudo mais, mas que, no final, não rende uma boa história. É apenas mais um enredo seguindo uma certa fórmula, sabe?

    Parabéns pela resenha. A forma como você a formatou, com esses tópicos, acho simplesmente genial! Muito organizada e fácil de se ler!

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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  4. Eu já li esse livro, não gostei muito do livro.

    http://sobre-tudoum-pouco.blogspot.com.br/

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  5. Não em espantei com a classificação. Não gosto quando a história é cheia de personagens. Ouvi muitas críticas como também sobre o livro físico e o enredo. Gosto de enredos que se passam em pequenas cidades, mas claro, com enredo fluido. Nunca li nem HP, mas tenho uma pequena vontade, de tantos elogios pelos leitores à autora.
    Bjs Ana

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  6. Oi, Ana,

    Estive várias vezes com esse livro nas mãos para comprar, mas nunca conclui a compra. Ele não me atrai não tem jeito. E depois, as resenhas não são muito lá elogiosas.

    Beijo!

    Miriam ♥ Livros, Bobagens e Guloseimas!

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  7. Ainda não li "Morte Súbita", mas já vi diversas opiniões sobre ele, tanto de pessoas que amaram, como de pessoas que odiaram. Também vi várias pessoas reclamando da falta de fluidez da leitura, mas acho que isso varia de acordo com o leitor.
    Eu gostei bastante do que o livro trata, e espero me agradar da leitura.
    Não vou criar muitas expectativas e nem me deixar levar pela opinião das outras pessoas, já que as opiniões são tão diferentes. Quero ler esse livro o mais rápido possível e saber mais sobre a escrita da J.K. Rowling.
    Beijos!

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  8. Esse livro está na minha lista a um tempinho e não li ainda. Gosto muito da escrita da JK e não vejo a hora de lê-lo.

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