Resenha: A morte de Ivan Ilitch - Leon Tolstói

A morte de Ivan Ilitch
Autor: Leon Tolstói
Editora: L&PM Pocket
Ano da edição: 1997
Páginas: 109
Tradutor(a): Vera Karam
Revisores: Renato Deitos e Flávio Dotti Cesa
ISBN: 85-254-0600-7
Tipo: literatura russa, romance.

Sinopse: "Muitos críticos consideram A morte de Ivan Ilitch como a novela mais perfeita da literatura mundial; a agonia de um burocrata insignificante serve de pretexto ao autor para nos contar uma história que diz respeito ao destino de cada um de nós e que é impossível ler sem um frêmito de angústia e de purificação"


(OS TRECHOS EM VERMELHO PODEM CONTER SPOILERS DO ENREDO)

Este livro foi-me indicado por uma professora para que estudasse as fases e o processo do luto em pacientes terminais e/ou em seus familiares. "A morte de Ivan Ilitch" é um romance curto e subjetivo, aprofundando-se na psique de suas personagens e, é claro, de sua personagem principal.

O romance começa com o momento em que os magistrados, colegas de Ivan Ilitch, tomam conhecimento de sua morte. Sabemos o que se passa na cabeça de cada um deles (uns com uma total indiferença, outros pensando sobre quem deverá assumir o lugar do morto). Uma das personagens mais marcantes deste início é Piotr Ivanovich: considerado o amigo mais próximo, tem o dever de comparecer ao velório e prestar suas condolências. Neste momento, é perceptível o quanto negamos a morte: 

"'Três dias e três noites de sofrimentos terríveis e depois a morte. Ora, isso pode acontecer comigo, de uma hora para a outra', pensou aterrorizado. Mas, imediatamente, sem que ele soubesse explicar, veio em seu auxílio a velha idéia de que isso havia acontecido a Ivan Ilitch e não a ele, de que isso não iria e nem poderia acontecer a ele e que o fato de pensar algo assim pudesse lhe acontecer só significava que estava se deixando levar por pensamentos depressivos, o que era um erro, como bem demonstrava a expressão de Schwartz. Piotr Ivanovich animou-se outra vez e passou a perguntar interessadamente sobre os detalhes da morte de Ivan Ilitch, como se a morte fosse uma fatalidade à qual somente Ivan Ilitch estivesse sujeito e ele não." Capítulo 1, páginas 16-17.

Em um estudo, constatamos que a morte nem sempre foi considerada um acontecimento ruim ou perverso; há sociedades que a festejam, mas no sentido de comemorar o cessar do sofrimento e/ou a busca de uma vida eterna em um local muito melhor do que aqui. A morte passou a ser um algo terrível a partir da melhoria da medicina (em especial a partir do século XIX), em que uma pessoa morrer é considerado um fracasso: do médico, da família e, em especial, do próprio doente. Isto deve-se também ao próprio instinto de sobrevivência humano e, como no exemplo acima, até mesmo um mecanismo de defesa do ser humano, a supressão (bloqueio voluntário de pensamentos, ideias ou acontecimentos desagradáveis).

A partir do segundo capítulo, a história de Ivan Ilitch é contada: sabemos sobre suas origens, sua juventude, seu casamento com Praskovya, a vinda dos filhos, seus desgostos na profissão e finalmente seu auge. Esta parte (que dura alguns capítulos) é descrita de forma mais sucinta e pontual, visto que o objetivo principal é narrar o processo de morte.

A leitura é tão envolvente e o mistério (por que Ivan Ilitch morreu?) é tão intrigante que não percebemos algumas pistas deixadas no enredo. Não se enganem: não é um romance policial, mas esse "suspense" faz com que encaremos toda a sucessão de eventos seguinte do mesmo modo que Ivan Ilitch faz e que se confundem com as fases do luto (Kübler-Ross. 2008, p. 12,13): negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Reafirmo que este é um romance intrigante, sucinto, intensamente atemporal e até mesmo bruto. Sendo minha primeira leitura de Tolstói, posso afirmar que estou muito interessada em ler seus outros títulos, já que "A morte de Ivan Ilitch" confirma com destreza e precisão a genialidade da literatura russa.

Não conheço as traduções de Vera Karam, mas acredito que seu trabalho foi bem feito. Não tenho queixas acerca de revisão e de diagramação. A capa não é das mais atrativas (se comprasse o livro, o renome do autor seria o principal fator de escolha), mas também não é totalmente desagradável.


O AUTOR
Leon Nikolaievitch Tolstói, genial escritor russo, nasceu em 1828 em Iasnaia Poliana. Filho de uma importante família ligada aos Czares, ficou órfão ainda criança. Freqüentou a Universidade de Kazan, onde estudou línguas orientais e direito. Em 1847, por herança, tornou-se senhor de vastas terras em Iasnaia-Poliana, daí o porquê de ser também conhecido por Conde de Tolstói. 
Tolstói, profundo pensador social e moral e um dois mais eminentes autores da narrativa realista de todos os tempos, depois das suas primeiras obras – entre outras, as autobiográficas Infância (1852) e Contos de Sebastopol (1855-1856), baseado em suas experiências na guerra da Criméia –, escreveu Guerra e paz (1865-1869) e Anna Karenina (1875-1877). Considerado um dos romances mais importantes da história da literatura universal e uma das obras-primas do realismo, Guerra e paz é uma visão épica da sociedade russa entre 1805 e 1815. Dela emana uma filosofia extremamente otimista, que atravessa os horrores da guerra e a consciência dos erros da humanidade.



Sobre a blogueira:

Ana Carolina Nonato cursa Medicina na Faculdade de Medicina de Marília/SP Leitora assídua desde os 3 anos de idade, os livros são seus maiores amores na vida.

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