RESENHA: As Esganadas - Jô Soares

As Esganadas
Autor: Jô Soares
ISBN: 978-85-8057-129-5
Páginas: 336
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Sinopse: Como ator e comediante, o Jô é um grande fazedor de tipos. Sabe como poucos construir um personagem, defini-lo com um detalhe e dar-lhe vida com graça e inteligência. Como autor, essa sua maestria se expande: os tipos são postos no mundo e, mais do que no mundo, numa trama — e o seu criador (eu quase escrevi Criador, pois não deixa de ser um trabalho de deus) se solta. Toda a ficção do Jô é feita de grandes personagens envolvidos em grandes tramas. Os tipos e a trama deste livro são especialmente engenhosos e através deles o autor nos dá um retrato saboroso do Rio de Janeiro no fim dos anos 1930 e começo do Estado Novo — o Rio das vedetes que davam e dos políticos que tomavam, das estrelas do rádio e das corridas de “baratinhas”. E nesse mundo em ebulição chega uma figura portuguesa, saída de um poema do Fernando Pessoa, para elucidar o estranho e terrível caso das gordas desaparecidas que… Mas não vou revelar mais nada. Um dos prazeres da literatura policial é ir acompanhando o desvendar de uma trama, levados de revelação a revelação por alguém com a fórmula exata para nos enlevar — e enredar. No caso do Jô, quem nos guia é um autor que já provou seu domínio do gênero, e que aqui se supera na perfeita dosagem de invenção, humor e erudição que nos prende desde a primeira página, desde a epígrafe. Prepare-se para ser enlevado e enredado, portanto. E prepare-se para outras sensações. Só posso dizer que a trama deixará você, ao mesmo tempo, horrorizado e com fome. E que depois da sua leitura os Pastéis de Santa Clara jamais significarão o mesmo.


Enredo
• Espaço: É descrito de acordo com a necessidade. Por exemplo, quando o foco do trecho é conversa entre personagens, pensamentos, sentimentos (e etc), a narração trata o ambiente de modo secundário, já que este pouco colaborará com a cena que se passa. Todavia, quando a cena se torna muito mais convincente e real mostrando-se o ambiente em que acontece (no caso dos assassinatos, por exemplo, é de suma importância), o autor não economiza palavras para deixar o leitor cada vez mais inserido naquele local.
• Tempo: É de muita importância neste enredo, possui declarações diretas (década de 1930), já que o autor mescla características e eventos da época para endossar a história.
• Personagens: Possui diversas personagens que podem ser classificadas em uma escala de 0 a 5 de profundidade de acordo com a importância das mesmas para o enredo. O assassino e os envolvidos na investigação são as mais complexas, já que aparecem mais e estão diretamente envolvidas com todos os acontecimentos da trama. As assassinadas têm um grau de complexidade variante com o espaço dedicado a elas na história (as três primeiras, por exemplo, são bem pouco complexas por somente serem mencionadas). Outro aspecto importante das personagens é que suas origens foram bem preservadas. Por exemplo, o "Esteves sem metafísica" tem linguajar e cultura próprios de Portugal; Diana possui as características físicas de uma mulher da época exceto a personalidade marcante de jornalista. Muitas vertentes médicas são utilizadas para embasar vários fatos da história, principalmente se tratando do assassino.
• Criatividade: O foco deste enredo é novo (assassinato de mulheres cujo único em comum é o fato de serem gordas e esganadas), mas a fórmula segue bem o padrão dos enredos anteriores do autor.
• Andamento do enredo: Em grande parte da história há um andamento constante, já que o leitor conhece o assassino e suas táticas, mas também conhece o lado dos investigadores. A partir da aproximação entre estes (assassino e captores), o nível de tensão adquire proporções gradualmente elevadas, tornando praticamente impossível a parada da leitura.
• Início, meio e fim: O enredo, em sua totalidade, é muito bem escrito. O início mostra o assassino e o porquê de seu ódio pelas gordas, mas não o explora em sua totalidade (isto acontece durante a história). A partir de então, vários acontecimentos da época se entrelaçam aos assassinatos (ocorridos de forma brutal, mas curiosa). Algumas características que aparecem no enredo são muito coincidentes, o que o torna um pouco surreal nestas. O final, infelizmente, não compensou toda a construção pesquisada e bem arquitetada, já que foi "mais do mesmo", um verdadeiro clichê.

Estrutura "Artística"
• Capa: O desenho de uma mulher gorda em giz estirada no "asfalto" da época é bem pertinente ao enredo.
• Diagramação: Perfeitamente organizada.
• Fontes: de tamanho excelente, fácil assimilação e leitura.
• Sinopse: Esta demonstrada acima é escrita por Luis Fernando Veríssimo e serve mais para elucidar as características "excelentes" do autor que a história propriamente dita. A sinopse encontrada nas orelhas do livro expõe demais todas as características do enredo. Em suma, duas sinopses que não se complementam e que muito pouco funcionam como deveriam (ou seja, atrair um futuro leitor em potencial).
• Enredo: é, notoriamente, completamente planejado e organizado. Todos os elementos foram bem pensados e colocados (o que só não ocorre no final que é muito simplório e previsível, contrariando todo o andamento anterior).

Estrutura Física (Materiais)
• Capa: Material agradável ao toque, permite que a lombada seja aberta razoavelmente sem se deformar. Na capa em si, pode estar sujeito a alguns vincos ou rasgos, mas nada alarmante. .
• Páginas: De cor amarelada, reduzem a intensiva reflexão de luz, auxiliando o leitor a prolongar seu tempo de leitura.

Análise
Enredo (x2): 3,92
 • Espaço (x2): 4 (muito bom);
 • Tempo (x2): 5 (ótimo);
 • Personagens (x2): 5 (ótimas);
 • Criatividade (x1): 2 (regular);
• Andamento do enredo (x2): 4 (muito bom);
• Início, meio e fim (x3): 3 (bom);

Estrutura Artística (x1): 3,44
 • Capa (x1): 5 (ótima);
 • Diagramação (x1): 5 (ótima);
 • Fontes (x2): 5 (ótimas);
 • Sinopse (x2): 1 (ruim);
• Enredo (x3): 3 (bom);

Estrutura física (x1): 5
 • Capa (x1): 5 (ótima)
• Páginas (x2): 5 (ótimas)

Nota final: [2.(3,92) + (3,44).1 + 5.1]/4= 4,07




Gostei da obra?


Até a metade estava adorando, tudo muito bem escrito, arquitetado, milimetricamente planejado. A partir deste momento, algumas passagens se tornaram perfeitas demais, muito coincidentes mesmo, entendem? Daquelas que, quando lê, você pensa "isso só pode acontecer na ficção". Mesmo assim, a leitura continuou sendo bem agradável e divertida. O problema foi o final. Estava tão animada, tão tensa querendo saber como eles descobriam o assassino que não conseguia parar de pensar no livro. Então, o final se revelou tão clichê que eu fiquei muito decepcionada, sério. Esperava mais, principalmente depois de todo o modo como o enredo foi construído até aquele momento. Era para ter uma nota excelente, mas por essas e outras a nota caiu bastante.

O Autor
José Eugênio Soares, mais conhecido como Jô Soares, é um humorista, apresentador de televisão, escritor, artista plástico, dramaturgo, diretor teatral e ator brasileiro.

Agradeço à Companhia das Letras pelo exemplar.




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COMENTÁRIOS

2 comentários:

  1. Ainda não li nada do Jô, mas mesmo com final clichê esse parece ser legal...\o/...beijokas elis

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  2. Saudações dominicais :D

    Sabe que agora foi que percebi que o título do livro é As esganadas e não 'As enganadas' como pensava que era! Que falta de atenção rsrsrs

    Bom, o Jô é um grande fazedor de tipos e o livro até tem seus méritos por isso. Entretanto as descrições das mortes são um tanto desnecessárias para a proposta de leitura engraçada (a proposta deve ser essa já que se você perceber bem tem vários personagens caricatos aí.) E o limite entre engraçado e macabro definitavemente não combina.

    Outros livros do autor são até melhores. Este se aplica mesmo à uma gama de pessoas realmente interessadas em um gênero assim. 

    Uma ótima semana :)

    att.,


    @nos_17 

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