RESENHA: A Visita Cruel do Tempo - Jennifer Egan

A Visita Cruel do Tempo
Autora: Jennifer Egan
ISBN: 978-85-8057-129-5
Páginas: 336
Editora: Intrínseca
Ano: 2010
Sinopse: Bennie Salazar é um executivo da indústria musical. Ex-integrante de uma banda de punk, ele foi o responsável pela descoberta e pelo sucesso dos Conduits, cujo guitarrista, Bosco, fazia com que Iggy Pop parecesse tranquilo no palco. Jules Jones é um repórter de celebridades preso por atacar uma atriz durante uma entrevista e vê na última — e suicida — turnê de Bosco a oportunidade de reerguer a própria carreira. Jules é irmão de Stephanie, casada com Bennie, que teve como mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína e em garotinhas. Sasha é a assistente cleptomaníaca de Bennie, e seu passado desregrado e seu futuro estruturado parecem tão desconexos quanto as tramas dos muitos personagens que compõem esta história sobre música, sobrevivência e a suscetibilidade humana sob as garras do tempo.


Enredo
• Espaço: Depende do contexto em que se encontra. Quando a personagem dá muita importância ao que a cerca - ou o espaço sendo crucial para o enredo, é narrado de forma detalhista e intimista, praticamente na visão da própria personagem em questão. Na verdade, são poucas as passagens em que esta descrição mais detalhada não se faz necessária, mas mesmo assim é feita de maneira equilibrada pela autora. Desta forma, o leitor não se cansa com o enredo; pelo contrário, esta intimidade com o local onde as personagens vivenciam suas situações traga o leitor mais e mais para dentro da história, logo estando tão mergulhado nela que deixar de ler lhe será praticamente impossível.
• Tempo: Possui algumas definições diretas mais como orientações para o leitor. Há vários tempos narrados: infâncias, adolescências, idades adultas e até mesmo velhices de diversas as personagens; cada capítulo narra um tempo distinto na vida daquele círculo social.
• Personagens: Não há uma personalidade principal no enredo; todas têm uma importância singular no capítulo a elas dedicado. O círculo engloba familiares (filhos, pais, tios, maridos e esposas), relações de emprego (patrão e empregada/empregado) e até mesmo amizade. Mostrando cada personagem em um tempo diferente, a autora constrói e desconstrói as personalidades para no final construí-las novamente, de modo a todas as personagens possuírem histórias de vida densas e complexidades psicológicas muito aprofundadas.
• Criatividade: É um enredo muito criativo pelo modo como foi construído. A história na ordem cronológica do calendário, a ordem "normal", pode parecer muito comum. Afinal, são situações que acontecem em vários lugares do mundo, sejam elas novas ou velhas. Porém, a narrativa é ponto alto, é de inovação pelo modo não costumeiro como foi escrita.
• Andamento do enredo: O enredo não possui grandes momentos de tensão em decorrer de alguma ação específica - como uma perseguição ou afins. Mas se torna tenso e até mesmo denso pela intimidade criada entre leitor e personagens, pelo nervosismo que capta o leitor e o faz vibrar cada uma das situações, sejam elas positivas ou negativas. Isto, em suma, é muito bom para a proposta.
• Início, meio e fim: Esta história se inicia do zero. O leitor conhece Sasha, conhece sua personalidade única e alguns dos fatos que permearam sua vida e que a fizeram estar onde estava naquele momento. Neste momento, o leitor também conhece, parcamente, as outras personagens (não todas, mas a maioria das que têm relações com Sasha no momento presente). A cada capítulo, o narrador se altera. (SPOILER - necessário)Bennie, o executivo da indústria musical, em um período de crise com seu filho ainda pequeno, já divorciado. Logo mais, sua ex-esposa Stephanie tem um capítulo dedicado a ela na época em que ainda eram casados. Cada capítulo encaixa uma peça no quebra-cabeças que é a vida de cada uma das personagens. Tal "jogo" só estará completamente montado no ponto final do último capítulo, fator que une o leitor cada vez mais à leitura; é um enredo de grande atração e difícil separação por parte do espectador, o que o torna um livro de sucesso. Ao invés de um ponto alto, há dois: as personagens e a própria narrativa em si.

Estrutura "Artística"
• Capa: Os desenhos das personagens sobrepostos criam uma imagem que significa exatamente o que o enredo quer mostrar: uma sobreposição de vidas, de momentos, de personalidades, do eu presente, passado e futuro. É muito pertinente ao enredo. O esquema de cores também é muito favorável a chamar a primeira atenção de um leitor potencial.
• Diagramação: Perfeitamente organizada.
• Fontes: de tamanho excelente, fácil assimilação e leitura.
• Sinopse: Se o enredo fosse construído de forma "comum", esta seria uma sinopse mais que exagerada. Porém, por mais que a sinopse entregue a relação entre as personagens e o que possivelmente acontecerá com elas, a história consegue superar todas as expectativas, todos os clichês e lugares-comuns, envolvendo o leitor num redemoinho de sensações que a fará parecer nada ou ser completamente esquecida. É a sinopse perfeita: serve como vitrine, apenas. Não influirá no modo como o leitor verá o enredo a não ser que este volte em todos os momentos a ela.
• Enredo: é, notoriamente, completamente planejado e organizado. A ordem dos capítulos, os anos, as relações entre as personagens, tudo é completamente orquestrado de modo a produzir um conjunto de sensações único ao leitor. A primeira página do livro já possui um trecho que instiga o espectador de uma forma inimaginável, tamanha a maestria como foi colocado.

Estrutura Física (Materiais)
• Capa: Material agradável ao toque, permite que a lombada seja aberta razoavelmente sem se deformar. Na capa em si, pode estar sujeito a alguns vincos ou rasgos, mas nada alarmante. As orelhas de maior tamanho não são feitas para marcações, mas para informações recorrentes (como sinopse e autora).
• Páginas: De cor amarelada, reduzem a intensiva reflexão de luz, auxiliando o leitor a prolongar seu tempo de leitura.

Análise
Enredo (x2): 5
 • Espaço (x2): 5 (ótimo);
 • Tempo (x2): 5 (ótimo);
 • Personagens (x2): 5 (ótimas);
 • Criatividade (x1): 5 (ótima);
• Andamento do enredo (x2): 5 (ótimo);
• Início, meio e fim (x3): 5 (ótimo);

Estrutura Artística (x1): 5
 • Capa (x1): 5 (ótima);
 • Diagramação (x1): 5 (ótima);
 • Fontes (x2): 5 (ótimas);
 • Sinopse (x2): 5 (ótima);
• Enredo (x3): 5 (ótima);

Estrutura física (x1): 5
 • Capa (x1): 5 (ótima)
• Páginas (x2): 5 (ótimas)

Nota final: [2.(5) + 5.1 + 5.1]/4= 5


Gostei da obra?
De acordo com o Los Angeles Times, "o melhor livro que você terá nas mãos". Sinceramente, eu acho que eles exageraram, afinal ainda há muitas leituras por vir, sem contar os clássicos; todavia, o exagero foi pouco. Este livro é de uma magnitude que impressiona. Até agora, quando me lembro das horas que passei lendo, me parece que não foi tempo suficiente para poder absorver e entender toda a complexidade deste enredo. Jennifer Egan merece ter vencido o Pulitzer. E eu estava um tanto cética! Nem sempre o vencedor de prêmios é exatamente tão bom... Mas a meus olhos, este livro é o melhor que li neste ano; o melhor livro de minha vida junto com Ratos e os clássicos. Dos contemporâneos (considerando a nova literatura), é o melhor juntamente com o enredo de Gordon Reece. Se eu montar uma estante de ouro algum dia, com certeza este será o primeiro livro do qual me lembrarei. Agradeço à editora Intrínseca pelo exemplar e parabenizo-a pelos excelentes critério, escolha e qualidade envolvidos na disponibilização desta obra.

A Autora
Jennifer Egan was born in Chicago and raised in San Francisco. She is the author of The Invisible Circus, a novel which became a feature film starting Cameron Diaz in 2001, Look at Me, a finalist for the National Book Award in fiction in 2001, Emerald City and Other Stories and, most recently, the The Keep, which was a national bestseller. Her short stories have appeared in The New Yorker, Harpers, Granta, McSweeney’s and other magazines. She is a recipient of a Guggenheim Fellowship, a National Endowment for the Arts Fellowship in Fiction, and a Dorothy and Lewis B. Cullman Fellowship at the New York Public Library. Her non-fiction articles appear frequently in the New York Times Magazine. Her 2002 cover story on homeless children received the Carroll Kowal Journalism Award, and her most recent article, The Bipolar Kid, received a 2009 NAMI Outstanding Media Award for Science and Health Reporting from the National Alliance on Mental Illness.  Her most recent novel , A Visit From the Goon Squad, won the 2011 Pulitzer Prize, the National Book Critics Circle Award for Fiction, and the LA Times Book Prize.






Share this:

COMENTÁRIOS

12 comentários:

  1. Aninha, mesmo com todas essas críticas positivas eu não apostava na leitura não...
    Mas sua resenha me deixou 'boquiaberta' rs. Parece ser ótimo mesmo!

    :*MiInteiramente Diva

    ResponderExcluir
  2. Nossa! Amou o livro, hein? Pelo tempo que sigo o blog, você nunca deu nota 5 para nenhum... Era sempre 4,984518164/498165165157518948165841 rsrs
    Sabe, você acendeu uma luz na minha visão. Eu sempre achei que aquele capa fossem desenhos de cavernas e tal, mas, não, são realmente pessoas! Haha, talvez fosse o fato de eu só ter visto pelo computador.
    Uma coisa é verdade, fiquei muito curioso. Espero que esse livro esteja na minha estante em breve!

    ResponderExcluir
  3. fatoselivros fatoselivros29 de março de 2012 14:31

    Ana, que livro é essee??? Eu não conhecia, mas amei a resenha super empolgada. Para arrancar elogios até do NYT deve ser excelente. Eu me pergunto como ainda não conhecia...

    Amei. Gosto do gênero e quero ler!

    BjoO
    Pri
    Entre Fatos e Livros

    ResponderExcluir
  4. Uau!! Fiquei com muita vontade de ler.
    Parabéns pela resenha.

    ResponderExcluir
  5. Olá, Mi!

    Então... às vezes um livro é muito mais que parece. Acho que vale a pena investir um pouquinho de tempo, por mais que tudo conspire contra! Eu adorei o livro!

    Um grande abraço, diva! \o

    ResponderExcluir
  6. Olá, Israel!

    Pois é, este vai pro hall da fama, sério. Nunca me senti assim com um livro! Uma sensação bem nova, mas de uma qualidade impressionante só comparável a Ratos! Realmente, achei muito legal a ideia das pessoas se "misturando" em seus traços como ocorre no livro! Eu também espero. Ainda estou decidindo se deixo na minha ou se faço uma promoção... Veremos!

    Grande abraço!

    ResponderExcluir
  7. Olá, Pri!

    Pois é! Foi o primeiro da Intrínseca que solicitei neste ano e não me arrependi! Comecei com chave de ouro, é maravilhoso! Leia sim, super recomendo!

    Grande abraço!

    ResponderExcluir
  8. Olá, Adriana!

    Obrigada! Acho que as resenhas positivas são as mais difíceis. Mas recomendo que você o leia sim! xD

    Um grande abraço!

    ResponderExcluir
  9. Ó, comprei esse livro só por causa de vc!! (#pressãonehmuma), hauahuaahauahu

    ResponderExcluir
  10. Se eu contasse apenas com a sinopse, não seria um livro que eu me arriscaria a ler, mas, a resenha me fez mudar um pouco de opinião.
    Eu gosto de histórias que há um quebra-cabeça que vai se encaixando ao longo do livro, porém... esse não foi pro topo da minha lista de livros a serem lidos.
    De qualquer forma, ótima resenha {:

    ResponderExcluir
  11. Ai flor, eu achei a capa tão sem graça....mas gosto não se discute.....pela sua opinião a leitura deve ser ótima mesmo, afinal colocá-lo numa estante de ouro não é pra qualquer um...rsrs.....vou tentar ler uma hora dessa se eu tiver a chance. Beijoaks elis

    ResponderExcluir
  12. Estou lendo o livro. Ou melhor, tentando. Leio muito não ficção. Mas quando vi tantas referências positivas nas capas do livro pensei que era bom variar um pouco e ler também um pouco de ficção. Arrependimento! Estou quase na página 100 e até agora acho tudo um tédio só e, claro, uma tremenda perda de tempo precioso. Vão falar que é preconceito mas não gosto de ler livro de mulher. Olha aí a confirmação (infelizmente).     

    ResponderExcluir